Viajar sozinha para índia: relato e dicas práticas de uma viajante sola

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Como é para uma mulher viajar sozinha pela Índia? É seguro? Nesse post a Karol de Souza, viajante sola e professora de yoga, que já passou mais de 3 meses viajando pelo país vai contar como foi sua experiência e dar várias dicas práticas para quem também quer conhecer esse país cheio de cores, histórias e sabedoria.

Karol no Umaid Bhawan Palace

Karol é uma mulher que explora o mundo!! Ela percorre o planeta ensinando Yoga e desvendando lugares considerados tabus para viajantes solas. Do Nepal à Costa Rica, da Índia à Portugal. Ela nos contou sobre a sua experiência de passar 3 meses na Índia.  

“A informação que a gente recebe através da mídia é que na Índia há um altíssimo número de estupros coletivos não apenas em estrangeiras mas também em mulheres locais. Isso acaba amedrontando muitas mulheres de viajarem sozinhas pra lá. “

“Eu já fui duas vezes para a Índia, a primeira vez eu fui sozinha e a segunda com uma amiga. Me preparei psicologicamente e também tinha em mente que eu deveria ter o dobro de cuidado, sobretudo no estado do Rajastão, onde a maior parte das viagens é over night, feita de trem com duração de até 14 horas. Não é recomendado fazer estes percursos sozinha.” 

Roteiro

GOA

O meu primeiro destino foi Goa, eu fui fazer um curso de formação em Yoga. O curso não foi indicado por ninguém, eu encontrei na Internet através do depoimento das pessoas e acabei chegando até a escola. 

Eu não gostei muito desta região, não é que seja um lugar ruim mas é que eu achei que é uma parte do País que já está mais ocidentalizada. Então não senti aquela verdadeira vibe de estar na Índia.Como era o primeira vez que eu ia pra lá,  foi ótimo porque não foi um choque cultural muito grande. 

Eu fiquei lá durante um mês para fazer o meu curso, por isso acho que de certa forma foi uma boa escolha, já que foi um lugar que eu me senti muito à vontade. Era perto da praia mas realmente não foi aquela coisa de como a gente imagina Índia. Goa é um lugar super tranquilo, mesmo sendo mulher. Você vê muitas meninas na praia de shorts, de biquíni.

Gadisar Lake, Rajastão
RAJASTÃO

Depois de Goa, eu peguei um vôo para Nova Delhi e decidi fazer uma viagem para o estado do Rajastão.  Acabei lendo várias informações – que depois foram confirmadas – que viajar pelo Rajastão que dizer que tu vai fazer muitas viagens de trem. E algumas destas viagens de trem são overnight, duram até 14 horas. 

Eu ouvi bastante que meninas não deveriam viajar num trem sozinha, principalmente à noite. Mas  eu não consegui encontrar ninguém que quisesse viajar comigo no meu curso de yoga, todo mundo já estava indo embora logo depois.

“Fiquei com medo de ir sem a companhia de ninguém, apesar de eu ser super acostumada a viajar sozinha. Dessa vez eu quis tomar uma precaução extra porque é no Rajastão em que estão os lugares  que o índice de estupro é maior.”

Além disso, tem um esquema das passagens que eu não sabia e acabei descobrindo depois. Existem várias agências de viagens que compram todas as passagens que estão disponíveis e tu não consegue comprá-las diretamente com as companhias dos trens, é um pouco caótico.

Viagem de trem pelo Rajastão, uma das maiores dificuldades das viajantes solas

#DICADEAMIGA

INTREPID

Eu resolvi fazer minha viagem pelo Rajastão com uma empresa de viagem que se chama Intrepid, uma empresa americana que tem sede no mundo inteiro. Eles organizam grupos de viagem e tinham um grupo que fazia Rajastão e Varanasi, que é a cidade mais sagrada da Índia, também Agra, onde fica o Taj Mahal e Delhi. Tudo isso em 21 dias. Também optei pela Intrepid porque muitos desses lugares não há hostel, não são destinos tão fáceis de encontrar acomodação. A maioria das vezes tu fica em guest house ou em casas de família. Essas informações são mais difíceis e complicadas de organizar uma viagem. 

Por essa razão também senti – não apenas uma segurança de estar viajando com um grupo de 12 pessoas – que eles já tinham todos esses contatos das famílias que nós nos hospedamos. Também fomos para vilas distantes que nem teria ouvido falar e que provavelmente eu não teria tido a oportunidade de conhecer se estivesse sozinha, de chegar tão perto destas pessoas que muitas vezes nem falam inglês. Eu pude ter a chance de viver uma experiência bastante local, eu recomendaria muito contratar esta empresa.

OUTROS PONTOS TURÍSTICOS NO RAJASTÃO

Eles nos levaram em um tour e nos mostraram a parte antiga de Delhi, onde fica o bazar de especiarias. Também Nova Delhi, a parte super moderna da cidade, que é como qualquer cidade grande. Também fomos nos principais pontos turísticos do Rajastão, fizemos tudo de trem. Conhecemos Jaipur, que é a capital e também conhecida como a cidade Rosa. Fomos a Jodhpur, a cidade que é toda azul e Jaisalmer, a cidade dourada construída sob um forte. Além disso, Udaipur considerada a Veneza da Índia, uma cidade romântica e repleta de lagos. Conhecemos muitos fortes e palácios e desertos….parece um conto de fadas! 

Uma das viagens mais bonitas em questão de história, arquitetura…é muito diferente de tudo , muito interessante. O estado do Rajastão foi onde eu realmente senti um pouco mais da verdadeira Índia. Lá  não é um lugar que você vai encontrar turistas em todos os lugares. Provavelmente tu vai ser a única turista e só pessoas locais ao seu redor. Foi uma oportunidade de ver o País de perto.

VARANASI

Em Varanasi é onde eles fazem a cremação dos corpos no rio Ganges. Achei um lugar super interessante, mas realmente é um choque cultural muuuito grande. Há muita sujeira e acho que de certa forma o “espiritual e santo” foi um pouco explorado para o turismo. Isso foi uma coisa que eu não gostei muito, mas de qualquer forma é um pouco assim em qualquer lugar na Índia, né. Essa coisa de espiritualismo e do yoga virou um comércio, em Varanasi senti que isso era um pouco mais forte. Mas isso não deixou o lugar menos especial.

AGRA 

É onde em que está o Taj Mahal, um lugar super lindo. Na cidade em si não há muito o que ver.

Taj Mahal, Agra

NORTE DA ÍNDIA: RISHIKESH E DHARAMSALA

Rishikesh e Dharamsala são lugares que recomendo para quem se interessa por yoga, meditação e espiritualidade. 

Depois eu viajei ao norte, nessa parte eu já estava sozinha. Fui à Rishikesh que é a capital mundial do yoga e depois para a cidade de Dharamsala de trem. Essa região fica aos pés dos himalaias e é muuuito mais tranquilo de viajar sozinha como mulher porque há muitos viajantes em busca de retiros de yoga. Não são lugares tão autênticos, por não haver tantos locais vivendo, há muitos estrangeiros por isso você já se sente mais à vontade e segura de fazer as coisas sozinha. Depois peguei um ônibus à noite para McLeod Ganj, que é onde o  Dalai Lama vive. Mesmo sendo um ônibus overnight me senti super segura. É um lugar diferente das outras cidades que eu tinha conhecido, todas muito mais caóticas, com várias pessoas. Lá eu fiquei em um Ashram, que são como retiros espirituais bastante acessíveis. Normalmente você paga um preço bem em conta para hospedagem e alimentação. 

O estado de Dharamsala tem muito natureza, cachoeiras, trilhas. Aqui o número de budistas é maior, mas ainda há vários hindus. A cultura é um pouco mais tibetana porque eles estão na fronteira com o Tibet.

Rishikesh é a capital mundial do Yoga

Yoga na Índia

#DICA DE AMIGA

Ashram

Normalmente é difícil reservar um Ashram, eles quase nunca respondem e-mails. A melhor opção é chegar na cidade e ir pessoalmente tentar se hospedar. Em Dharamsala fiquei na Villa de Dharamkot cheguei às 6 da manhã e procurei um quarto pra alugar. Já em Rishikesh fiquei em alguns lugares diferentes mas na verdade não recomendo nenhum. 

RETIRO DE MEDITAÇÃO

Fiz um retiro de meditação vipassana por 10 dias e foi uma experiência única na Índia. Vipassana é uma meditação budista  que Buda chegou a iluminação. É um retiro de silêncio de 10 dias no qual a pessoa contribui com o dinheiro que puder ou que achar válido. Então de certa forma é “de graça” e inclui hospedagem e alimentação.  

Vestimenta

As regiões do centro-norte da Índia são lugares que você tem que tomar muito cuidado porque as pessoas são mais tradicionais. Principalmente tem que ter muito respeito com a forma de se vestir. Tem que cobrir os ombros, usar calças largas, nada que marque muito, de preferência camisetas compridas que tampem o bumbum. Escolha as que não marque muito o corpo, sabe. 

Sempre que eu podia levava uma canga, então já cobria a cabeça e os ombros para chamar menos atenção. Acho importante respeitar a cultura local e tentar chamar o mínimo de atenção dos homens. Eles não estão acostumados a ver mulheres com o ombro de fora então eles ficam olhando mesmo! olhando de tipo nem piscar!

Eu nunca me senti desconfortável lá, talvez por eu ser muito morena, até tenho uma feição meio indiana, acho que pra eles eu não me sobressaía tanto. Mas eu via que as meninas que estavam com a gente que eram loiras, de olhos claros – talvez também porque elas estavam usando roupas não tão adequadas para a Índia – chamavam muito mais atenção e os caras ficam olhando pra elas, era bem desconfortável. 

Outra coisa que fez com que eu me sentisse mais à vontade era estávamos num grupo de 12 pessoas e nosso guia era um indiano.  Isso fez a nossa viagem uma experiência muito mais fácil, mais tranquila.

Thali é a comida mais popular da Índia

Alimentação      

Índia é certamente um destino muito barato, as comidas locais indianas são em média R$ 25 para café da manhã, almoço e jantar. Claro que se você estiver com saudade de comida de casa ou quiser comer uma pizza, por exemplo, é bem mais caro.  

A questão da higiene da comida é meio que uma roleta russa. Comi várias vezes na rua e não passei mal e outras fui a restaurantes com uma cara boa, de lugar limpo e acabei passando super mal.

De fato quem não está acostumado a viajar pela Ásia vai acabar pegando uma intoxicação alimentar pelo menos uma vez. Pode ser uma muuuito ruim ou uma mera dorzinha de barriga. Eu passei muito mal umas duas vezes, uma vez em cada viagem.

Mas uma pessoa com um pouco de frescura não deveria ir à Índia. É um lugar bem roots, tem que ter estômago. Mesmo pra pegar os ônibus, ir num banheiro público numa rodoviária, é meio foda. O lugar é muito sujo e a Índia fede, cara! Todos os lugares que você vai fede a sujeira, esgoto, xixi, coco. Tu vai ver muita pobreza. É um choque cultural muito grande. 

“Não tenho um lugar para indicar de restaurante, porque na Índia você tem que mergulhar na culinária e vai sempre do seu julgamento em relação a comida. Se eu puder recomendar alguma coisa, evite alimentos que são crus, tipo salada ou frutas cortadas, gelos também. Se a pessoa comer carne, acho que também é legal evitar se puder. Sempre beber água potável.”

 

Eu amo comer e a culinária local é uma parte bem importante da minha viagem, então eu curto muito experimentar comidas diferentes, temperos e etc..Acho que na Índia comer na rua é muito parte da experiência do País. Eu gosto de comer o que as pessoas locais estão comendo, normalmente eu pergunto o que é, onde ela comprou e vou no mesmo lugar. Meu julgamento é: se há muitos locais comendo ali é porque deve ser bom, deve ser seguro. 

Cuidados Importantes

  • Tomar cuidado onde você anda, principalmente à noite.
  • Sempre usar o táxi do hotel ou de uma companhia de táxi, não pegar qualquer um na rua.
  • Manter bom senso, não apenas como mulher, mas como viajante. 
  • Sempre observar como as pessoas em volta se comportam, se vestem, acho que vale à pena respeitar isso.

Olhar Feminino

Eu sempre encontrei pessoas no caminho que me ajudaram. Até quando eu fiquei doente, eu estava sozinha. Pessoas que não tinham muito a dar mas ajudaram como ela puderam. Na Índia há todos os tipos de pessoas como em qualquer lugar do mundo. Acho que a energia da pessoa vai atrair aquilo que é pra ela. 

Eu me sinto muito grata por sempre ter encontrado pessoas boas no meu caminho. Eu nunca me senti em perigo lá. Acho que se você tomar os cuidados necessários, a viagem se torna muito mais tranquila.  

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Deixou o Brasil quando tinha dezessete anos e passou a maior parte da sua vida adulta morando no exterior, em países como Índia, Costa Rica e Portugal.
Na Austrália estudou International Business e em 2017 largou seu emprego para ir para a Índia estudar yoga e massagem ayurvédica. Atualmente é professora de Yoga e mora em Ericeira, Portugal.

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